O Externato Nossa Senhora do Rosário, sendo uma escola católica de identidade salesiana, considera a sua função pastoral fulcral na missão educativa, tendo como fundamento o testemunho dos seus santos fundadores, D. Bosco e Madre Mazzarello.
O nosso projeto pastoral permite-nos, com a presença frutificante da espiritualidade salesiana, aprofundar este sentido educativo e, assim, ir ao encontro dos jovens e ajudá-los a crescer de uma forma integral. Neste processo de crescimento, a espiritualidade salesiana valoriza muito os momentos celebrativos, litúrgicos e de festa.
O tema proposto pela Pastoral Juvenil Salesiana para 2025-26, intitulado “Desperta! Há um lugar para ti”, é um desafio a educar o olhar para o nosso interior, num dinamismo de autodescoberta e discernimento, o olhar para a realidade em que estamos inseridos, descobrindo o nosso lugar no mundo e a despertar para a nossa vocação e missão, enraizadas naquilo que somos profundamente e nas necessidades do Mundo, confiantes de que Deus nos conhece, ama e chama-nos a uma missão concreta.
“Desperta!” é mais do que um convite: é um apelo direto ao coração de cada jovem a acordar para o que é essencial, a olhar para dentro e a reconhecer-se como dom.
“Há um lugar para ti” sublinha a certeza de que cada pessoa é única, amada por Deus e chamada a uma missão. Como educadores e evangelizadores, queremos garantir que nas nossas casas ninguém se sinta perdido, descartado ou invisível.
Deste modo, definimos sete princípios orientadores para a ação pastoral no ENSR:
1.º Procura de Deus, pois toda a pessoa é naturalmente aberta ao transcendente.
2.º Abertura a conhecer Jesus.
3.º Proximidade entre Alunos, Educadores, Comunidade Religiosa e Famílias.
4.º Formação integral “Bons cristãos e honestos cidadãos”, como caminho para a Felicidade.
5.º Pastoral das Famílias, a base da educação dos nossos jovens.
6.º Saída ao encontro dos mais vulneráveis.
7.º Contribuição para a construção de um mundo mais fraterno.
I. O Tema “Desperta! Há um lugar para ti!”
Em sintonia com o Ano Missionário Salesiano, que celebra os 150 anos da Primeira Expedição Missionária dos Salesianos de Dom Bosco (1875), a preparação da celebração dos 150 anos a Primeira Expedição Missionária das FMA (1877) e com a alegria da canonização da Ir. Maria Troncatti, salesiana missionária na Amazónia, este ano letivo será um ano intenso de vida e proposta. Queremos ser comunidades educativas que ajudam os jovens a despertar para si mesmos, para os outros e para Deus.
Vivemos tempos marcados pelo ruído, pela dispersão e por profundas inseguranças identitárias. Muitos jovens sentem-se perdidos no meio da pressão social, do individualismo e da cultura da aparência. É por isso que o lema “Desperta! Há um lugar para ti” surge como um grito de esperança e de confiança, um convite a sair do torpor, do medo e da superficialidade, para abraçar a vida com coragem e sentido.
II. O logótipo do lema
O logótipo ajuda-nos a ler esta proposta.
O Globo remete para a dimensão missionária que estamos a celebrar e para experiência de globalização que, a vários níveis, nos envolve. Somos cada vez mais conscientes de sermos uma aldeia global, onde os atos humanos e as alterações climáticas nos podem afetar a todos, independentemente do lugar do mundo onde nos encontramos.
O Despertador é o símbolo que queremos associar ao verbo “despertar”. É aquele instrumento fundamental que nos permite sair do sono e acordar para um novo dia, acolhendo mais um dia que Deus nos concede.
O Sol com a sua luz, tem a mesma simbologia do “despertar”. O nascer do sol está relacionado com o acordar natural da vida, sendo os seus raios forma de nos despertar para mais uma jornada. O Sol é também para nós, cristãos, uma imagem que nos remete para Deus Criador, fonte de vida.
A Rosa dos ventos recorda-nos temas de navegação, direção e orientação. Desafia-nos para mudanças e a para a busca de novos caminhos na vida.
A bússola representa o caminho de discernimento, de procura interior e de escuta, ajudando cada jovem a orientar-se no meio das dúvidas e desafios do seu tempo.
A cruz ao centro recorda-nos que Jesus é o ponto de partida e de chegada, o coração da nossa missão e o sentido último do nosso agir educativo. Dela nasce a luz que ilumina todos os que para o logótipo olham.
A linha inclinada de Turim à Patagónia simboliza o dinamismo missionário que vem dos nossos fundadores, Dom Bosco e Madre Mazzarello e, de modo especial, da Ir. Maria Troncatti: um movimento que atravessa fronteiras, mas que é também a viagem interior a que cada jovem é chamado no seu processo de crescimento.
III. Dimensões do tema pastoral: Identidade, Comunidade e Vocação
1. Identidade
Por “identidade”, entendemos um conjunto de características únicas e distintivas, como o nome, a data de nascimento, a filiação, as crenças, os valores, e a cultura, que permitem diferenciar e reconhecer uma entidade das demais. O próprio conceito de “ser-se pessoa” evidencia o seu carácter único, irrepetível e afetivo porque capaz de afetar e ser afetado.
A partilha de afetos ou outros elementos comuns com o outro ou outros que são ou se tornam próximos, oferece a segurança da pertença e vinculação e o reconhecimento familiar e/ou social. Estes elementos são preponderantes para uma visão sadia sobre si mesmo e catalisadora de compromisso de futuro de se ser (existir) e ser-se (sentido) desta ou de outra maneira.
Importa referir que a perda de identidade, seja do indivíduo e/ou cultural, pode ter consequências significativas. A nível individual, pode levar a situações críticas como a perda de sentido, a depressão, a ansiedade, a baixa autoestima e até mesmo transtornos mentais. Já a perda de identidade cultural, por outro lado, pode enfraquecer a coesão social e aumentar a desigualdade e o sentido de pertença. A este propósito, refira-se a pluralidade identitária das nossas sociedades e do potencial risco de conflito social, armadilhado, tantas vezes, pela “opinião fácil”, pelas “fakenews”, pelo “algoritmo”.
Como educadores, é importante estarmos atentos a estes fenómenos sociais e ao seu impacto e promovermos, junto com a família, condições de proteção promotoras do bem-estar físico, emocional e espiritual, como contextos para uma sã convivência social e democrática.
Diante de um mundo que evidencia profundas marcas de crises de identidade, ruturas sociais e conflitos, a pergunta “quem sou eu?” remeterá para a compreensão da própria vida na relação com os outros. Por sua vez, somos chamados a responder a uma outra questão: “Para quem sou eu?”. A este propósito afirma o Papa Francisco: “És para Deus, sem dúvida alguma; mas Ele quis que fosses também para os outros, e colocou em ti muitas qualidades, inclinações, dons e carismas que não são para ti, mas para os outros.” (CV 286). Este será o princípio e o fundamento da arquitetura que sustenta a “pessoa que queremos formar”.
Na Encíclica Laudato Si (2015), o Papa Francisco recorda a verdade mais profunda para o cristão: fomos criados por amor e para o amor! Somos criaturas, chamados à vida por um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8) e “se o ser humano não redescobre o seu verdadeiro lugar, compreende-se mal a si mesmo e acaba por contradizer a sua própria realidade.” (LS 115).
Este é um elemento interessante para nos questionarmos sobre qual a antropologia de base que suporta os nossos currículos e demais práticas educativas. Não pertence à natureza original de “ser-se pessoa” o domínio e a posse, mas o amor e a comunhão.
A identidade é resposta ao dom originário da vida e, por isso, ela não se fabrica, descobre-se! Este é o princípio e o fim de toda a ação educativa: «Deus ama-te como és e conhece a tua identidade mais profunda» (CV 112).
D. Bosco recorda-nos que “não basta amar os jovens, mas que é preciso que eles se sintam amados”. Este amor vivido pelos educadores e experimentado pelos jovens remete sempre para algo maior que nós e único: a revelação de se saber amado por Deus que nos criou e nos confiou o cuidado por todas as coisas criadas!
O sentido de pertença não é só social ou psicológico, mas igualmente espiritual. “Tu és meu filho amado” (Mc 1,11). Saber-me assim, deste modo, permite-me abraçar a fraternidade como projeto de realização. Este será o “clique” necessário para “Despertar” e oferecermos às nossas crianças e aos nossos jovens o melhor dos lugares para habitar e construir: o Reino de Deus… O Reino desejado por Deus!
Adaptado de: Pe. Paulo Pinto, “Lema Pastoral 2025-2026”
2. Comunidade
Desperta! Uma interpelação explícita no sentido do combate à indiferença, à estagnação e simultaneamente um convite para o acordar, para o olhar, para o espanto, para a sede e para o pensar. Não se trata de despertar com ruído para acordar, mas ser tocado pelo silêncio para pensar. Como escreveu Erling Kagge, despertar para “o silêncio que descansa como um passarinho na palma das nossas mãos”.
Há um lugar para ti. Quem és tu? Na mesma linha, não sabemos quem és, nem esse detalhe é relevante. Apenas tu. Tendo consciência de que há um lugar para ti, é pertinente a reflexão sobre a provocação levantada por A. Lobo Antunes: “O que faria eu se estivesse no meu lugar”?
Há um lugar ao redor de ti. “Ninguém nasce a merecer mais ou menos que ninguém e, ainda assim, nascemos todos em partes diferentes nesse espetro do privilégio. Desse lugar onde nascemos, partimos para a vida, como se de uma corrida de obstáculos se tratasse, uns a correr os 100 metros desimpedidos, outros maratonas com areias movediças, lagos com crocodilos e alçapões no final de cada etapa. Pelo meio, milhares de milhões de percursos diferentes, uns mais difíceis do que outros, alguns aparentemente sem fim.” (João Mareco).
Ao longo dos anos em que vamos crescendo por dentro e por fora, ouvimos duas mentiras com alguma frequência: uns dizem-nos que nunca vamos ser ninguém; outros garantem que poderemos ser o que quisermos. A verdade é que, embora não possamos ser tudo o que queremos, podemos seguramente ser tudo o que somos. […] “como Steve Jobs afirmou, em 2005, no seu discurso em Stanford: “O vosso tempo é limitado, por isso não o desperdicem a viver a vida de outra pessoa.” (Shetty, J., 2020)
Ver implica reciprocidade. Se cada um se mantém no seu modo de ver e não admite outro, torna-se mais cego. Quanto mais cada um se fixa na sua maneira de ver, menos vê.
Tendo consciência da complexidade da realidade onde vivemos; tendo ainda consciência das diferentes lentes com que cada um de nós vê o próprio mundo, a perceção do outro não é algo passivo ou unilateral. Ainda assim, muitas vezes, a maioria dos olhares que habitam a escola veem apenas alunos e professores que a própria escola fabricou.
Se queres a verdade, deixa a tua, eu deixo a minha também, e vamos juntos buscá-la. Assim se procura a verdade e não a negação da outra pessoa. Um convite para que a verdade seja procurada em conjunto, escutando e respeitando as verdades de cada um. A humildade, o diálogo, o respeito pelo outro, são ingredientes indispensáveis para se alcançar a verdade maior. Como escreveu Alberto Brito, muitas vezes as diferenças assustam-nos, mas a vida é multicolor, dinâmica, cheia de contrastes, e ainda bem. “Quem tem medo de se desentender, nunca se chega a entender”. Um casal feliz não é aquele que vive sem conflitos, mas sim o que aprende a superar os conflitos que a vida lhe traz. O mesmo se pode dizer em relação à família, ao grupo, à comunidade.
Entende-se “Despertar” como um momento de claridade, de lucidez e de compreensão. Talvez um convite para sairmos do estado de inércia ou ilusão e abraçarmos a realidade, seja ela portadora de amarras de sorrisos ou de mágoas.
Pretendemos ser cada vez mais uma comunidade que escuta, que reflete e que aprende. Uma escola onde moram autores agarrados à vida. Nós, educadores salesianos, abraçámos e abraçamos o mundo da vida, com muitas vidas, cada uma com um mar de possibilidades em aberto. Este detalhe é fascinante, quando vencemos a cegueira da rotina, do conformismo, quando conseguimos ver.
Adaptado de Prof. José Morais, “Lema Pastoral 2025-2026”
3. Vocacional
Como educadores salesianos, somos chamados a acompanhar crianças e jovens no caminho da descoberta da sua vocação. É a nossa missão ajudá-los a despertar para a realização de uma forma de estar na vida que pressupõe encontrar o seu lugar e a sua missão no mundo. Mas afinal quem são os jovens de hoje?
Dizem-nos os estudos mais recentes que estamos a acompanhar crianças e jovens muito ocupados e dispersos com inúmeras atividades e ofertas que mais do que unificar, dispersam a sua capacidade de pensar sobre a vida e tomar decisões. De facto, os jovens vivem uma “cultura da indecisão” que bloqueia muitas vezes a sua descoberta vocacional. Paralelamente, identifica-se uma escassez de adultos de referência que dão segurança e disponibilidade para acompanhar o seu caminho de crescimento. A tudo isto se junta o desafio da saúde mental, atualmente tão ameaçada e limitada no seu desenvolvimento sereno e equilibrado.
É, portanto, nossa responsabilidade, assumir a missão de acompanhar a infância e a juventude, num tempo caracterizado pela instabilidade e insegurança, despertando-os para a esperança. A nossa vocação educativa concretiza o tema pastoral deste ano, se ajudarmos as crianças e jovens a despertar para aspetos determinantes da nossa vida:
– DESPERTAR para a própria REALIDADE e para a realidade que os envolve. É fundamental estar sensível e atento ao que nos rodeia, olhar para fora e permitir-se ser tocado pelo que está a acontecer. O Papa desafia-nos a “cultivar uma espiritualidade da atenção e da escuta”, resistindo à lógica superficial e acelerada da cultura digital, que anestesia a sensibilidade e dispersa o coração. «Não deixes que te roubem a esperança» – é preciso ver, discernir e agir, deixar-se olhar desde dentro e assumir o desafio de viver tudo em profundidade. É importante que a realidade não nos ofusque os anseios do coração, mas nos ajude a encontrar caminho para despertar para a realidade, de modo inteiro.
– DESPERTAR para o cuidado da RELAÇÃO consigo próprio e da relação de amizade com Deus. O Papa Francisco insiste: «Conhecer-se a si mesmo é uma tarefa difícil, mas necessária». Importa ajudar os jovens a libertarem-se de imagens falsas, de si próprios e de Deus, que nos ferem ou nos limitam, e crescer numa relação autêntica consigo mesmos e com Deus, que é Pai, Amigo, Amor. Deus não é um juiz severo que vigia de longe, mas um companheiro fiel que caminha ao nosso lado. É preciso despertar para a verdade daquilo que a relação com Deus nos pode dar. Crescer na perspetiva de Deus e da Sua vontade, que é, muitas vezes, uma lógica diferente da nossa. No cuidado da relação com Deus teremos, certamente, a oportunidade de nos descobrirmos filhos muito amados e de irmos percebendo, gradualmente, qual o nosso lugar no mundo.
– DESPERTAR para as PERGUNTAS, esperando ativamente pelas respostas. Como nos interpela o Papa Francisco na Exortação apostólica Cristo Vive. Há que desafiar os jovens a colocarem-se perguntas fundamentais da vida: “Conheço-me a mim mesmo, para além das aparências ou das minhas sensações? Sei o que alegra ou entristece o meu coração? Quais são os meus pontos fortes e as minhas fragilidades? Como posso servir melhor e ser mais útil ao mundo e à Igreja? Qual é o meu lugar nesta terra? Que poderia eu oferecer à sociedade? Tenho as capacidades necessárias para prestar este serviço? Em caso negativo, poderei adquiri-las e desenvolvê-las?” Mas a pergunta fundamental é esta: “Para quem sou eu?”. A resposta vocacional é inerente à vida e é o que lhe dá o verdadeiro sentido.
– DESPERTAR para a DECISÃO. Há um momento em que, depois de se terem reconhecido e interpretado os sinais, as escolhas têm de ser feitas. Não se trata de impor decisões aos jovens, mas de os ajudar a interpretar aquilo que já viram e reconheceram como verdades na sua vida. Acompanhar, mais do que instruir, é oferecer escuta, espaço, confiança. Trata-se do momento em que o jovem é chamado a responder à questão: Qual é o meu lugar no mundo? Torna-se necessário tomar decisões para se chegar a dizer: “estou no lugar certo!”. Esta certeza é fruto do confronto com a Palavra de Deus, de tempos de oração quotidianas, de experiências de serviço e do acompanhamento espiritual por parte de alguém que os possa orientar. Ajudar os jovens a encontrar e a aceitar o seu lugar é dar-lhes a oportunidade de fazer um caminho de alegria e salvação.
4. Conclusão das três dimensões
Só podemos, educadores e famílias, acompanhar as crianças e jovens no seu caminho, se nós próprios, revisitando a nossa história, reconhecermos o trajeto percorrido e nele uma sabedoria que só a vida nos pode dar. O nosso testemunho é a primeira palavra que as crianças e jovens poderão ouvir. Só esse testemunho os convencerá da verdade que lhes queremos proporcionar. S. João Bosco e Santa Maria Mazzarello foram os primeiros a viver estas etapas do caminho de descoberta vocacional: olharam à sua volta, “escutaram” Deus a chamá-los na realidade concreta em que viviam; cuidaram do seu autoconhecimento e da sua relação com Deus; deixaram-se interrogar e acompanhar por pessoas concretas que os ajudaram a interpretar a “voz” de Deus. Tomaram a decisão de dar a vida por um projeto concreto de felicidade, respondendo à pergunta: “para quem sou?”.
Também nós somos, hoje, chamados a seguir os seus passos. Sim, porque é a nós, educadores salesianos e famílias, que se dirige, em primeiro lugar, este tema pastoral: Desperta! Há um lugar para ti!
Adaptado de Ir. Linda Vieira e Pe. David Teixeira, “Lema Pastoral 2025-2026”
IV. Opções de fundo da Pastoral para 2025-2026: